Menino ao cubo

foto23cul-703-mesa-d16O ator e diretor Selton Mello entra no bar do L’Hotel, onde está hospedado, a alguns passos da avenida Paulista. Levanto-me para recebê-lo, mas um hóspede mais ligeiro o abraça com força e pede para tirar uma foto ao seu lado. O sujeito que o aborda é um “desconhecido íntimo”, como bem definiu Nelson Rodrigues e Selton lembraria mais tarde. O dramaturgo usava a expressão para descrever pessoas que o seguravam na rua, davam-lhe tapinhas nas costas e respiravam coladas ao seu cangote como se fossem amigos de longa data.

Assim que o “desconhecido íntimo” o libera, Selton entra no bar, cumprimenta-nos, desculpa-se pelo atraso e pede um minuto para voltar ao seu quarto para trocar de roupa. Terminou de dar uma entrevista a um canal de televisão e não quer estar vestido da mesma maneira em todos os jornais e programas em que aparecer.

Aos 38 anos, o ator já conta com 30 de carreira, entre filmes, novelas e seriados. Acaba de ser homenageado no Festival de Cinema de Gramado, cuja organização o considerou “um dos maiores talentos da nova geração”. No discurso de agradecimento, disse que seu sonho sempre foi o cinema. Se pudesse, iria até a rodoviária dali e pegaria um ônibus para o passado para tranquilizar o garoto ansioso que foi, dizendo-lhe que, quase 30 filmes depois, estaria ali, no palco, sendo homenageado.

“Gosto do set e da agilidade das filmagens. Os filmes já me levaram para muitos lugares. Isso é rico e me faz feliz”

A porta do elevador se abre e ele retorna calçando tênis, camiseta e jeans pretas. Senta-se no sofá e a repórter numa cadeira à sua frente. Às cinco e pouco da tarde ainda não há funcionários no bar. Um garçom quebra o galho e aparece com o cardápio.

– Quero uma água com gás e gelo, pede Selton.

– Só? – indago, surpresa. Nenhum aperitivo? Uma porção para beliscar?

Afinal, a seção pressupõe entrevistas ocorridas ao longo de uma refeição.

– Não, obrigado. Estou bem.

Vai-se o pão, fica o circo. “O Palhaço” (2011) – filme que Selton dirige e interpreta e de que foi corroteirista e montador – abocanhou quatro prêmios no Festival de Paulínia – entre eles o de melhor direção e roteiro, que o diretor assina com Marcelo Vindicatto.

Logo depois de um brinde de água ao seu longa, que tem estreia prevista para 29 de outubro, o ator continua a nos alimentar de conversa, numa voz cheia de nuances, acelerando o ritmo da fala quando se anima. Voz do amigo e confidente eletrodoméstico em “Reflexões de um Liquidificador” (André Klotzel, 2010), voz emprestada a tantos personagens que dublou e agora conta como tudo começou.

O menino, mineiro de Passos que cedo se mudou para São Paulo e depois para o Rio, grudava os olhos nos programas de calouros mirins e nos humorísticos. Conhecia todos os bordões de Ronald Golias, Moacyr Franco, Renato Aragão, Jô Soares e Chico Anysio.

Um dia chamou a mãe. “Quero ir lá dentro”, disse, apontando para o aparelho à sua frente. “Quero ser igual àquelas pessoas que estão do outro lado.” A convicção era tamanha que Dona Selva não titubeou. Fez um terninho para o filho, providenciou gravata e sapato social e o levou a vários shows de calouro, como o programa do Bolinha e do Bozo. Selton – que sempre foi fã de Roberto Carlos – escolheu “Lady Laura” para a estreia. Com sete anos, não tremeu, tampouco corou. Ficou encantado com a experiência. “Senti que ali era meu lugar.” Logo estava no palco novamente, entoando “Meu querido, meu velho, meu amigo”.

Com uma música fez afago na mãe; com a outra, uma homenagem ao pai, Danton Natal de Mello. “Assim todo mundo ficava feliz, né?” Logo se vê que, além de artista, o menino tinha talento para a política.

Selton não se imagina fazendo outra coisa, embora já tenha amargado dúvidas. “Tive meu pequeno ‘tilte’. Acreditei que não queria mais atuar, não sabia mais fazer aquilo, não tinha mais prazer. Mas passou. Foi só um pensamento exacerbado.”

A experiência serviu de mote para “O Palhaço”, que conta a história de Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton Mello), pai e filho, uma dupla de palhaços que roda as estradas do interior com a trupe do Circo Esperança. Pangaré, porém, está em crise, pois acredita que perdeu a graça e questiona sua vocação.

“Queria falar sobre o peso e a beleza que pode ter o seu destino. Sou filho de um bancário e de uma dona de casa, um mundo completamente distante do que escolhi. Um menino pequeno apontar para a TV dizer que quer ir para lá? Isso é vocação, é destino.”

Mas seu irmão, Danton de Mello, também é ator, não? Sim, mas, além do ofício, ele toca um restaurante e tem muito prazer orquestrando cardápios e freguesia. “Não tenho o menor talento para isso. Qualquer coisa que eu fizer na vida será ligada à arte.”

Bebe mais um gole de água e pergunta ao fotógrafo que o rodeia tirando fotos. “Está ficando bom aí, cara? É que estou falando tanto.” E volta à conversa, contando sobre seu trabalho de ator. Acha graça daqueles sujeitos que vestem o figurino e encarnam o personagem com tal afinco que nem respondem quando chamados pelo próprio nome. “A gente não recebe santo, não é Chico Xavier. Vivemos um personagem e, quando o diretor diz ‘corta’, aquilo acaba.”

O que realmente funciona é dedicação, concentração e pesquisa. “Meus amigos até reclamam, já sabem que sumo quando estou envolvido com um projeto.” A título de exemplo, conta com mais detalhes o seu trabalho no longa “Cheiro do Ralo”. Ele soube que Heitor Dhalia filmaria o romance do quadrinista Lourenço Mutarelli. Comprou e leu o livro durante um voo. Na primeira leitura já teve o estalo de como interpretar o protagonista.

Na trama, Lourenço é dono de uma loja de penhor que vive enfurnado num galpão. Dada a natureza de seu negócio – a aquisição de objetos usados sempre pelo menor preço possível -, Lourenço acaba por desenvolver um jogo perverso com seus clientes. Soma-se a isso o encanamento entupido do banheiro, que causa um terrível mau cheiro.

Assim que saiu do avião, Selton ligou para o diretor do filme dizendo que queria o papel e se prontificou a fazer testes, se preciso. “Eu me compadeci daquele sujeito. Ele é insano, grotesco, patético e agressivo com o próximo, mas muito mais com ele mesmo. É um cara completamente solitário. Ele comprava coisas, comprava bunda, comprava o amor. Mas, na casa dele, era um pobre diabo.”

Selton salienta que a solidão, cerne do texto de Mutarelli, é um grande tema, principalmente em tempos de tantas parafernálias eletrônicas. “Quantas vezes as pessoas saem juntas, mas ficam no BlackBerry o tempo todo?” – e olha para baixo, imitando com maestria os viciados no aparelho. “Sentar e ter uma conversa como esta que a gente está tendo agora é raro.”

Selton conta que aprendeu a atuar ainda menino, entre câmeras e luzes dos bastidores das novelas. “Aquele era meu mundo da fantasia. Sabe aquela história do ‘to play?’ Para mim atuar é isso, brincar de ser. É claro que tem trabalho que exige uma imersão maior. Eu também já fui um ator tomado. Mas hoje em dia é brincar com distanciamento. Não quero ficar louco por causa de um personagem.”

Ele nunca deixou de ser o menino que transformava uma “espingardinha furreca” em canhão. O primeiro grande encantamento com cinema foi em “Guerra de Canudos” (Sérgio Rezende, 1997). Selton vivia um soldado que tinha à frente um exército de figurantes vestidos a caráter. “Olhei aqueles caras, no meio do sertão, e falei: uau! Cinema é continuar sendo criança, ao cubo. Lá eu tinha 800 homens fardados e toda uma cidade montada. Era uma brincadeira de gente grande. Pensei: estou no século XIX, não preciso fazer nada, só ser.

Mas nem tudo é tão fácil no ofício. Selton ainda pena para controlar ataques de riso, em especial se estiver contracenando com Claudia Abreu, “uma risonha louca”, ou Fábio Assunção, “aí é que complica.” Selton e Assunção – que fazia seu irmão na novela “Força de um Desejo” – desenvolveram toda uma técnica para domar as gargalhadas. “Quando o Fábio estava falando e a câmera não estava em mim, eu virava a cabeça para trás e ele contracenava com minha nuca. Cruzar os olhos, nem pensar, era risada na certa. Quando ele acabava de falar era minha vez de virar e ele imediatamente olhava para trás, para que eu não batesse os olhos no dele. No ar dava a impressão que a gente estava se olhando.”

Essa foi sua última novela, feita em 1999, “ou seja, no século passado.” Selton foi contratado da Globo durante quase 15 anos. “As novelas foram minha escola.” Mas chegou um momento em que o ator não estava mais feliz e decidiu mandar às favas o cartão de ponto para se dedicar ao cinema.

“Minhas escolhas são sempre muito intuitivas. Cinema foi onde me encontrei. Gosto do set e da agilidade das filmagens, que duram em média dois meses. É um tempo de imersão total, convivendo com aquela equipe e depois: acabou. É meio cigano, os filmes já me levaram para muitos lugares. Isso é rico e me faz feliz.”

O assessor nos aflige ao dizer que temos de encerrar, pois o ator tem outra entrevista marcada, mas Selton diz que pode ficar um pouco mais, e continua a conversa.

Ele não é adepto de preparador de ator – profissional contratado para cuidar do desempenho do elenco, ajudando na construção dos personagens. “Nos meus filmes, definitivamente, nunca haverá um preparador de ator. Porque o maior prazer de um diretor é trabalhar diretamente com seu elenco, descobrindo com os atores que história quer contar.” Sua longa experiência como ator é essencial para ajudá-lo na direção. Selton é capaz de reconhecer as nuances de seu elenco – há os mais intuitivos, os cultos ou os obstinados. “Tem uma turma que requer mais tempo de ensaio, assim como aquela que é melhor não ensaiar em demasia, sob risco de se engessarem.”

Dirigir lhe permite imprimir uma assinatura à obra que como ator nem sempre é possível. “Tenho a sensação de que como cineasta alarguei as fronteiras de minha criação. Continuo sendo um ator, só que um ator que também dirige.” Como tantos outros que ele admira – Sean Penn, Woody Allen, Clint Eastwood, Hugo Carvana ou Domingos de Oliveira.

O primeiro filme que dirigiu, “Feliz Natal” (2008), é denso e sem muita esperança, enquanto “O Palhaço” (2011) é mais solar. “Sou um cineasta bipolar” – brinca. “Nós somos assim, solares e sombrios, brilhantes e umas antas. São só dois filmes, mas tem muito de mim em ambos.” E acrescenta que, com o segundo filme, se considera um “camarada mais liberto, menos apegado às referências”.

Se tivesse de apontar um traço que o caracterizasse como diretor, seria o de trabalhar com humoristas da antiga, os mesmos que o fascinavam quando menino. Em “Feliz Natal” foi a vez de Lúcio Mauro, um grande humorista num personagem dramático. Em “Palhaço”, Moacyr Franco faz sua estreia na telona e, com apenas uma cena, conquistou o prêmio de ator coadjuvante em Paulínia.

“Entrou mais luz aqui, não?” É a voz do diretor, atento a tudo que passa ao redor. O fotógrafo, que neste momento tenta clarear o bar escuro, confirma e volta a clicar o convidado.

Como ele concilia as funções de diretor e ator nas filmagens? “É meio esquizofrênico para quem está de fora, mas para mim é muito natural.” Selton conta que marca a cena, a luz e a câmera e só depois vai vestir o figurino. Volta para o set. Luz, câmera, ação, rodando. Lá pelas tantas, percebe algo errado e diz “corta”. “O ator que contracena comigo leva um baita susto, mas nunca tiro o olhão do todo.”

Selton diz que dirige com “pulso firme, mas com doçura”. Nas pesquisas circenses que fez para o longa aprendeu a seguinte frase: “O humor do palhaço dita o humor do circo”. “O diretor dita o clima num set de filmagem. Se está tranquilo, fica todo mundo seguro; agora, se ele berra feito maluco, todos ficam histéricos.”

Ele contou com uma pesquisadora para o filme. A partir das descobertas que fazia, engordava o roteiro. Cita uma cena inserida no longa após ouvir uma história curiosa. Um artista circense lhe contou que haviam passado maus bocados por causa de uma expressão comum para quem é do picadeiro, mas suspeita para leigos. O circo tem de ser montado em cada nova cidade aonde chega. Para fixar a lona no chão, crava-se uma estaca. Mas, se o terreno for movediço e arenoso, é necessário colocar uma segunda estaca por baixo, para evitar que o circo voe. A estaca por baixo se chama “morto”. Então, a coisa mais trivial para a turma do picadeiro é dizer “vamos enterrar o morto”.

Só que essa história já provocou muita confusão. Certa feita, contou-lhe o artista de circo, num barzinho de beira de estrada, ele comentou com um colega: “Ah, vamos enterrar o morto”. O outro respondeu: “Pô, enterrar o morto aqui vai ser complicado”. Um sujeito que tomava uma cerveja no balcão ouviu, encarou-o e foi logo para cima: “Cadê o defunto, quem matou? Assassino!” Pancadaria armada. Fim da ópera: todo mundo na delegacia.

Selton considera que o melhor de ser um artista “é levar sonho para muita gente”. O pior? “Nossa, não tem.” Nem o assédio de “desconhecidos íntimos” o incomoda? Ele nunca quis ser um “homem invisível” para evitar os fãs. “Sinceramente, acho um saco ator que fica todo incomodado com assédio. Acha chato? Vai fazer outra coisa.”

Selton também tem seus momentos de lazer: joga sinuca, basquete, sai com os amigos para tomar chope e ir ao cinema. Além disso, vê bastante os pais, o irmão e as sobrinhas – todos moram na Gávea. E lê muito. Agora está entretido com a biografia de Tonico Pereira, que se define como “um ator de aluguel” e, como muitos brasileiros, faz de tudo um pouco: já vendeu enciclopédias, tem loja de parafusos e até uma concessionária de automóveis.

Selton e Tonico já trabalharam juntos em diversas produções. Nas filmagens de “Caramuru”, em Paraty, Tonico ia à venda, trajando o figurino, para comprar frutas secas. Pagava R$ 0,50 e as revendia para o elenco por R$ 1,20. Era negociante nato. Ganhava ninharia, mas seu prazer era justamente negociar.

Outro título que acabou de ler é “A Beleza Salvará o Mundo”, de Tzvetan Todorov, sobre a beleza da arte e sua importância para a civilização. Desde que começou a se aventurar na direção, Selton tem se interessado bastante por artes plásticas e quer aprender de que modo criam artistas como Chagall, Picasso ou Kandinsky. Para ele, fazer cinema é como pintar um quadro. Cada detalhe do enquadramento ajuda a contar a história, não só o que é dito.

No momento, Selton vive para o lançamento de “Palhaço” e não sabe ainda qual será seu próximo filme. Mas já está de “olhão” em José Dumont, que considera, ao lado de Paulo José, o melhor ator do cinema nacional.

Na mesa ao lado, o assessor faz um sinal. Dessa vez, o “corta” é derradeiro. Selton Mello desculpa-se por não ter mais tempo. Despede-se e sai de cena.

FONTE: Valor

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